
Tenho uma lembrança muito nítida da minha mãe arrumando a bolsa para ir trabalhar. O tempo exíguo, a quantidade de tarefas, a intensidade mental que hoje sei que ela tinha: o resultado era uma bolsa que frequentemente se traduzia em uma bagunça completa, com tickets velhos e clips e canetas e batons sem tampa produzindo pequenas tragédias no interior da valise bonita de couro verdadeiro.
A gente de conversa mole, eu deitada na cama, ela sentada mexendo na bolsa, me explicando porque sim ou porque não alguma coisa.
Agora, ela já idosa e com demência, o quarto de costura dela tendo se tornado uma réplica ampliada do pequeno caos da bolsa de couro, era frequente – e gostoso – mexer nas gavetas e caixas com alguma das minhas irmãs, nos perguntando porque diabos a mamãe tinha guardado um botton do INMET onde se via um solzinho escondido atrás de uma nuvem. Um não, cinco. Cinco bottons do INMET – ela que nunca trabalhou com meteorologia.
Na mesma caixa, um broche de bonequinha de alguma feira de artesanato, um ímã de Florianópolis sem o ímã, liguinhas de cabelo, uma caderneta de endereços literalmente caindo aos pedaços onde um telefone novo de alguém que começasse com a letra D ia entrar na página da letra D custasse o que custasse, mesmo que não houvesse mais linhas disponíveis, mesmo que fosse com uma caligrafia milimétrica subindo pelas paredes da página. Era desesperador mas gostoso visitar a bagunça dela esporadicamente.
Pra nós. Tinha menos graça pro meu pai, que convivia com a bagunça dela, da qual ela se ocupava cada vez menos à medida em que o Alzheimer ia tomando cada vez mais espaço no quartinho mental da cabeça dela. Com nosso apoio traduzido mais em concordância do que em ajuda objetiva, papai arrumou o quartinho dela. O físico, eu digo, já que sobre o outro ninguém pode nada.
Semana passada eu estava na casa deles, de conversa mole, eu deitada no sofá, ela com os olhos meio perdidos no infinito, mas às vezes encontrando os meus – certeiros, profundos, me trazendo de volta lá de onde eu vim.
“Essa casa não parece a minha casa”, ela disse. Eu, na dúvida se era um sentido figurado, como parecia, ou literal, e ela estaria variando – o que seria normal, no caso: “você não sabe onde está, mãe?”. “Eu sei. É a minha casa. Mas não parece minha. Essa casa parece com o Márcio”.
Levei ela pro quarto de costura, pra mexer nas coisinhas dela. A vovó Josélia também falava “coisinhas”: mexer nas coisinhas, nas costurinhas, basicamente o que eu estou fazendo agora, mexendo nas minhas letrinhas como mexo nos meus lápis, nos meus caderninhos, meus desenhos – a ideia mesmo de refúgio.
A gente abriu a primeira caixa: linhas.
Uma caixa comprida, com 20 carreteis enfileirados, dos tons claros pros escuros, numa ordem de deixar qualquer dono de armarinho ou encarregado de almoxarifado doente de inveja. Meu pai. (Eu tinha escrito almoxerifado, o que caberia perfeitamente: meu pai.)
Abri a próxima caixa: botões. Muitos. Só botões.
Percebi que era uma caixa redonda para os botões, depois de uma comprida pras linhas. Custei a acreditar em como meu pai encontrou caixas tão próprias pra cada item. Um talento nato.
A próxima caixa: fios e fitas. Apenas fios e fitas, prateados, vermelhos, de veludo.
Quanto mais caixas eu abria, menos eu encontrava minha mãe.
Meus olhos estavam bem abertos, eu estava perplexa sem conseguir disfarçar. Me invadiu uma ternura pelo meu pai que transformou o quartinho num lugar habitável, limpo e organizado, mas mais ainda um desespero de não encontrar nenhuma caixinha de inutilidades fofas aleatórias incoerentes entre si para poder entregar pra minha mãe como quem entrega um espelho: olha, é você.
Pedi ao meu pai, que sabe onde estão as coisas, o caderno de receitas verde – a única coisa que, já avisei, quero herdar da minha mãe. Lemos juntas o bolo de chocolate da Dona Kilda, a salada montanha russa, o salpicão, a receita de waffle que a Dedé copiou para ela, escrevendo ao final “Dedé 9 anos”.
Ela se viu, eu a vi, eu me vi e ficamos tranquilas.
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Semana passada, meu filho precisava da chave reserva do meu carro e eu o introduzi no mundo mágico da caixinha que mora dentro do meu armário. Cigarrilhas cubanas, um pacote de cogumelo, um relógio de pulso com algarismos romanos, duas medalhas de futebol que meu pai ganhou e que moravam com minha vó, a carteirinha de algum clube que nem existe mais, umas notas de dólares que sobraram de uma viagem. Não encontramos a chave reserva e ele riu das coisas estranhas que nem se parecem comigo.
se espremer (eu espremi) pinga que pinga uma ternura de não caber em casa, quartinho, caixa nenhuma (mas periga seu pai achar uma)